Dia d@ Biólog@: Ciência, biodiversidade, saúde e resistência.
- Prof.Dr. Julio Cesar Rosa

- há 5 dias
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O dia 3 de setembro é celebrado no Brasil como o Dia do Biólogo, em referência à regulamentação da profissão pela Lei nº 6.684, de 3 de setembro de 1979. A legislação regulamentou as profissões de Biólogo e Biomédico e criou os respectivos

Conselhos Federal e Regionais. Posteriormente, o Conselho Federal de Biologia (CFBio), por meio da Resolução CFBio nº 198, de 11 de dezembro de 2009, reconheceu formalmente o dia 3 de setembro como o “Dia do Biólogo”. [1,2]
A data constitui uma oportunidade não apenas para homenagear os profissionais da Biologia, mas também para refletir sobre a importância do conhecimento científico relacionado à vida, à biodiversidade, aos ecossistemas e às complexas relações entre sociedade e natureza.
A Biologia possui um campo de atuação amplo, que compreende desde os processos moleculares e celulares até organismos, populações, comunidades, ecossistemas e a biosfera. Consequentemente, o trabalho do Biólogo apresenta importantes interfaces com áreas como saúde, meio ambiente, conservação da biodiversidade, saneamento, biotecnologia, educação, pesquisa científica e políticas públicas. [1,3]
Biologia e compreensão da vida
A compreensão dos fenômenos biológicos exige reconhecer que os organismos não existem de maneira isolada. A vida manifesta-se por meio de complexas relações entre indivíduos, populações, comunidades e ambientes físicos e químicos.
Os ecossistemas constituem sistemas dinâmicos nos quais organismos interagem entre si e com componentes abióticos, participando de processos fundamentais, como os ciclos biogeoquímicos, a produção de biomassa, a decomposição da matéria orgânica, a polinização, a regulação hidrológica e a ciclagem de nutrientes.
Nesse contexto, a biodiversidade não deve ser compreendida simplesmente como uma relação quantitativa de espécies. Ela envolve a diversidade genética, a diversidade de espécies e a diversidade dos ecossistemas, constituindo componente fundamental do funcionamento dos sistemas naturais e da manutenção das condições necessárias à vida. [4,5]
A perda da biodiversidade, portanto, representa não apenas o desaparecimento de espécies, mas também a alteração de relações ecológicas e de processos que sustentam sociedades humanas.
Biodiversidade e bem-estar humano
A dependência da humanidade em relação aos sistemas naturais é ampla. Ecossistemas funcionalmente íntegros contribuem para a disponibilidade e qualidade da água, produção de alimentos, regulação climática, formação e fertilidade dos solos, polinização, controle biológico de organismos, armazenamento de carbono e diversos outros benefícios materiais e imateriais. [4,5]

O relatório da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) demonstrou que a natureza e suas contribuições para as pessoas estão sendo profundamente modificadas por diferentes pressões antropogênicas, entre elas mudanças no uso da terra e do mar, exploração direta de organismos, mudanças climáticas, poluição e espécies exóticas invasoras. [4]
Essas transformações possuem implicações que ultrapassam a dimensão ecológica. A deterioração dos sistemas naturais pode comprometer serviços ecossistêmicos essenciais e repercutir sobre a segurança alimentar, a disponibilidade de água, os meios de subsistência, a economia e a saúde das populações. [4,6]
A crise da biodiversidade e a crise climática
A crise contemporânea da biodiversidade está estreitamente relacionada às mudanças ambientais globais.
A transformação dos habitats, o desmatamento, a fragmentação dos ecossistemas, a exploração excessiva de recursos naturais, a poluição e as mudanças climáticas atuam conjuntamente sobre os sistemas ecológicos. [4]
As mudanças climáticas, por sua vez, podem modificar a distribuição geográfica das espécies, alterar ciclos ecológicos, aumentar a frequência ou intensidade de determinados eventos extremos e afetar a produtividade e a estabilidade de ecossistemas terrestres, aquáticos e marinhos. [6,7]

A relação é bidirecional: a degradação dos ecossistemas também pode contribuir para o agravamento das mudanças climáticas. Florestas, áreas úmidas, solos e ecossistemas marinhos desempenham funções importantes no armazenamento e no ciclo do carbono. A destruição desses sistemas reduz sua capacidade de contribuir para a regulação climática. [6,7]
Assim, biodiversidade e clima não devem ser tratados como problemas ambientais completamente separados. São componentes interdependentes de um sistema planetário complexo.
Biodiversidade e saúde
A relação entre biodiversidade, funcionamento dos ecossistemas e saúde humana constitui uma das dimensões mais importantes da agenda socioambiental contemporânea.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que comunidades humanas dependem de ecossistemas funcionais para obter água potável, alimentos, medicamentos, ar de qualidade e outros benefícios fundamentais. Ecossistemas saudáveis também contribuem para a regulação de doenças e para a estabilidade climática. [6]
Alterações ambientais podem modificar as relações entre seres humanos, animais, plantas e microrganismos. Mudanças no uso da terra, desmatamento, fragmentação de habitats, urbanização, mudanças climáticas e outras formas de transformação ambiental podem modificar padrões de exposição a agentes infecciosos e favorecer determinadas oportunidades de transmissão. [6,8]
Essa compreensão reforça a importância da abordagem One Health (Uma Só Saúde), que reconhece a interdependência entre a saúde humana, a saúde animal e a saúde dos ecossistemas.

Nesse contexto, a atuação do Biólogo pode estabelecer importantes conexões entre ecologia, microbiologia, epidemiologia, conservação, saúde pública e vigilância ambiental.
O Biólogo diante dos desafios do século XXI
A regulamentação profissional brasileira atribui ao Biólogo competências relacionadas à elaboração de estudos, projetos e pesquisas científicas básicas e aplicadas em diferentes setores da Biologia, inclusive aqueles relacionados à preservação, ao saneamento e ao melhoramento do meio ambiente. A legislação também contempla atividades de consultoria, perícia, elaboração de laudos técnicos e pareceres, conforme a habilitação profissional. [1]
A regulamentação posterior das áreas de atuação ampliou e organizou esse campo profissional, contemplando, entre outras, as áreas de Meio Ambiente e Biodiversidade, Saúde e Biotecnologia e Produção. [3]
Diante da complexidade dos problemas ambientais contemporâneos, o conhecimento produzido pela Biologia assume importância estratégica.
Conhecimento científico e tomada de decisão
Um dos papéis fundamentais da Ciência consiste em produzir conhecimento capaz de subsidiar decisões individuais e coletivas.
No caso das questões socioambientais, essa função assume importância particular porque os impactos podem ocorrer em diferentes escalas espaciais e temporais. Uma alteração aparentemente localizada pode produzir consequências ecológicas, econômicas e sanitárias que ultrapassam os limites do território diretamente modificado.
O conhecimento biológico permite identificar relações ecológicas, avaliar alterações ambientais, monitorar populações e ecossistemas, reconhecer riscos e contribuir para estratégias de conservação e recuperação ambiental.
Nesse sentido, o Biólogo participa de um processo mais amplo de construção de conhecimento e de mediação entre ciência, sociedade e políticas públicas.
Da conservação da natureza à conservação das condições de existência
Uma reflexão contemporânea sobre a Biologia exige superar a ideia de que a conservação da natureza constitui exclusivamente uma questão estética ou relacionada à proteção de determinadas espécies.
Conservar a biodiversidade significa também conservar processos ecológicos, ciclos naturais e condições ambientais fundamentais para a sociedade.
A perda de biodiversidade pode comprometer processos dos quais dependem a produção de alimentos, a qualidade da água, a fertilidade dos solos, a regulação de doenças e a estabilidade dos ecossistemas. [4,6]

Portanto, proteger a biodiversidade significa também proteger as condições biofísicas que sustentam a vida humana.
Essa perspectiva aproxima a Biologia de campos como saúde pública, planejamento territorial, saneamento, economia, educação, justiça ambiental e políticas de desenvolvimento sustentável.
Uma perspectiva para o Dia do Biólogo
O Dia do Biólogo constitui, portanto, uma oportunidade para reconhecer a contribuição desses profissionais à produção do conhecimento científico e, simultaneamente, refletir sobre os desafios impostos à vida no planeta.
Em um cenário marcado pela rápida transformação dos sistemas naturais, a Biologia contribui para responder questões fundamentais:
Como conservar a biodiversidade diante da expansão das atividades humanas?
Como restaurar ecossistemas degradados?
Como reduzir os impactos das mudanças climáticas sobre os sistemas naturais e as populações humanas?
Como compreender as relações entre degradação ambiental e saúde?
Como garantir segurança alimentar e hídrica sem comprometer os processos ecológicos que sustentam a produção?
Como construir sociedades capazes de respeitar os limites ecológicos do planeta?
São questões científicas, mas também sociais, econômicas, políticas e éticas.
A Biologia demonstra que a humanidade não constitui um sistema independente da natureza. Somos organismos inseridos em uma complexa rede de relações ecológicas e dependemos, direta ou indiretamente, do funcionamento dos sistemas naturais.
Por isso, talvez uma das maiores contribuições da Biologia para a sociedade contemporânea seja justamente nos lembrar de um princípio elementar, mas frequentemente ignorado:
A humanidade é parte da biosfera e depende da integridade dos sistemas que sustentam a vida.
Instituto Caminhos na Mata
Para o Instituto Caminhos na Mata, celebrar o Dia do Biólogo significa valorizar a Ciência e ampliar o debate sobre as relações entre biodiversidade, ambiente, sociedade, saúde e resistência.
Significa reconhecer que a conservação da natureza não é uma questão isolada, mas parte de uma agenda maior relacionada à qualidade de vida, à saúde coletiva, à sustentabilidade e ao futuro de todos os organismos.
Importante ressaltar que o atual modelo socioeconômico vigente na maioria dos países - privilegia uma pequena parcela. As elites no Brasil e no mundo - exploram os recursos naturais, exploram os recursos humanos - concentram os recursos econômicos e "democratizam" a poluição do ar, a degradação do solo, o envenenamento da agua e, consequentemente deixando a Terra inóspita para muitas espécies , inclusive a nossa. Extinção em massa.
Referências
1 Brasil. Lei nº 6.684, de 3 de setembro de 1979. Regulamenta as profissões de Biólogo e Biomédico, cria o Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Biologia e Biomedicina, e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República; 1979. Texto integral da Lei nº 6.684/1979 (Planalto)
2 Federal de Biologia. Resolução CFBio nº 198, de 11 de dezembro de 2009. Reconhece o dia 3 de setembro como o “Dia do Biólogo”, e dá outras providências. Brasília, DF: CFBio; 2009. Resoluções do CFBio (CFBio)
3 Conselho Federal de Biologia. Histórico: regulamentação das áreas de atuação do Biólogo. Brasília, DF: CFBio. Histórico do CFBio (CFBio)
4 Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services. Global assessment report on biodiversity and ecosystem services of the Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services. Brondízio ES, Settele J, Díaz S, Ngo HT, editors. Bonn: IPBES Secretariat; 2019. 1148 p. doi:10.5281/zenodo.3831673. (ICT IPBES)
5 World Health Organization. Biodiversity [Internet]. Geneva: WHO; 2024 [cited 2026 Sep 3]. WHO — Biodiversity (Organização Mundial da Saúde)
6 World Health Organization. Biodiversity and human health [Internet]. Geneva: WHO. WHO — Biodiversity and Human Health (Organização Mundial da Saúde)
7 World Health Organization Regional Office for Europe. Nature, biodiversity and health [Internet]. Copenhagen: WHO Regional Office for Europe; 2023 Jun 22. WHO Europe — Nature, biodiversity and health (Organização Mundial da Saúde)
8 World Health Organization. Promoting biodiversity conservation for climate and health [Internet]. Geneva: WHO. WHO — Biodiversity conservation for climate and health (Organização Mundial da Saúde)






























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